
Dizem-me que tenho um feitio difícil, que quando sou magoada corto e desapareço e sou até bastante agressiva.
A verdade é que já não consigo deixar passar as coisas em branco e passar um pano para limpar o pó.
Há uns anos atrás tive uma grande amiga, daquelas que falámos de tudo, que estávamos sempre em casa uma da outra. Sonhávamos em passar férias juntas com os maridos, em que os nossos filhos fossem amigos, em irmos ao casamento uma da outra e ficar na mesa mais próxima.
Iamos ao cinema, fazíamos compras juntas, ria-mos tanto que ás vezes nos dava aqueles ataques súbitos de ídas ao wc.
Quando dei por mim tinha tudo acabado.Começou a estar menos comigo e arranjar uma nova companhia que estaria sempre próxima dela. Não me ligava tanto, não saía tanto comigo.E eu fazia de tudo para a ter junto de mim!
Um dia cometi um erro, mas sei que não foi esse erro que acabou com a nossa amizade.
Hoje se me falam nela dizem-me que está diferente; snob, arrogante, peneirenta e pouco compreensiva.
Ás vezes pergunto-me se sou eu, mas quando me apercebo acho que não. Mantenho as mesmas atitudes de tratar bem as pessoas e de não as esquecer. E se assim o faço, porque se esquecem elas de mim.
Quando tinha uns dezasseis, dezassete anos costumava sair todos os sábados para o Blues juntamente com uma amiga. Quando podíamos estavamos lá também ás sextas e vésperas de feriados.
Nessa altura sentia que precisava daquilo, de sair e de estar com pessoas mais veljas e em lugares mais adultos.
Com o tempo a nossa vontade foi-se dissipando, mas sempre que podemos bebemos café aos sábados de tarde.
Hoje, passados seis anos, tenho a minha casa e o me marido, e apesar de perceber que os anos nos ensinam as melhores, mas principalmente, as piores coisas da vida, tenho um lar que me espera quando daio do emprego, um animal que sei que gosta tanto de mim como eu dele, e um marido, que apesar de só refilar do meu feitio, está sempre perto para me apoiar.
Será que sou eu que tenho esse feitio difícil ou será que são as pessoas que o acentuam em mim, de tanta chapada que levo na vida?