Cinzento e aborrecido


Tenho sono. Custa-me a acordar e ainda mais a sair da cama. Abraço-te mais um bocadinho e oiço o trânsito na televisão, repetitivo como sempre "Por mim posso chegar atrasada", penso.


Chamo pelo nosso gato que anda atrás de uma mosca e ganho coragem para me levantar.

Enquanto vou à casa de banho e vejo a minha cara de "Preciso da minha cama", repenso a minha escolha de vestuário para este dia, "Que se lixe, levo as calças de ganga". Por mais que tente vestir outro tipo de calças, sabendo que posso andar de calças de gnaga nem resisto. "Epa é verdade, tenho de mandar apertar as que comprei!"


Começa a tocar o teu despertador e fico mais animada por saber que mesmo indo trabalhar, se ficasse em casa ia ser pior porque não te tinha comigo. Mas "amanhã sei falta tenho de ir fazer as análises, o que serve para dormir mais um bocadinho".


A chuva regressou à nossa cidade e com ela o frio também. Hoje sinto mais frio que em dias anteriores.


O caminho para o trabalho é longo, com algum trânsito, alguma chuva e com imenso sono a acompanhar-me; até que por fim chego ao parque de estacionamento e lembro-me que tenho mais um dia pela frente, em que a tristeza pode contrastar com sorrisos com os colegas, e que a esperança vai-se desvanecendo.


Olho pela janela enquanto oiço que os aguaceiros só nos acompanham pela manhã "mas o dia está tão escuro que já parece de noite..." e penso que um dia o sol vai brilhar a sério, para mim, para ti, para nós, para o meu colega que também merece, para a minha querida que como eu deseja melhorar!


Olha, está a tocar na rádio aquela música do André Sardet que dá na novela e que dizes que não conheces mas que cantas melhor que ele. Só me dá para rir, porque há dias em que os nossos disparates compensam tudo.


Vou esperar pelo meu colega para ir ao café acordar um bocadinho, e para depois aguentar mais este dia longo e aborrecido.

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